Flávio Bolsonaro é a solução final
O medo, a revolução cultural bolsonarista e a promessa de salvação de um país que parece disposto a renunciar a si mesmo.
Ninguém sob o sol suporta o grau de polarização que a política impõe. Ele, “o sistema”, abstrato como “o mercado”, ultrapassou a linha do fracasso. É a ruína, você pode pensar.A polarização se torna letal quando divisões políticas se alinham e se fundem com divisões culturais, étnicas e religiosas.
A solução final reinventada é anunciada, com precisão cirúrgica. Quando não entendemos qual parte nos cabe no contrato social, o colapso sucede a ruína. O que parece destroços de uma vida antiga, nada mais é que uma nova divisão do poder, de um país grande que perdeu o encanto e a maldição de ser promessa não cumprida. A ascensão do clã Bolsonaro ao comando da maior potência da América do Sul, sob a perspectiva de uma relação de subordinação política aos interesses de quem despacha na Casa Branca, seria apresentada por seus defensores como uma solução para os problemas nacionais. Mas solução para quem? E, sobretudo, a que preço?No primeiro turno, uma parcela expressiva do povo brasileiro demonstrou viver aquilo que poderíamos chamar de estado febril.
Não se trata de atribuir qualquer patologia ao eleitorado, mas de reconhecer a temperatura de uma sociedade atravessada por ressentimentos, expectativas frustradas, antagonismos e medos. O que muitos receberam como um acidente histórico talvez tenha sido, na realidade, a manifestação mais evidente de um processo que se desenvolve diante de nossos olhos há mais de uma década. O espanto pertence, sobretudo, àqueles que preferiram a negação ao esforço de compreender o que estava acontecendo.
Afinal, nenhuma transformação dessa magnitude nasce espontaneamente das urnas. Antes de se converter em resultado eleitoral, ela percorre os ambientes familiares, as igrejas, os locais de trabalho, as redes sociais e os espaços cotidianos de convivência. Altera vocabulários, reorganiza pertencimentos, estabelece inimigos e oferece explicações aparentemente simples para um mundo cada vez mais difícil de compreender.Para o Brasil, essa contradição assume dimensões ainda mais profundas, o país possui recursos naturais indispensáveis à expansão da infraestrutura digital, mas continua enfrentando limitações na capacidade de dominar tecnologias, controlar cadeias produtivas e apropriar-se da riqueza gerada em seu território.
A disputa pela inteligência artificial não envolve apenas inovação. Envolve poder econômico, capacidade militar, controle da informação e soberania.É nesse cenário que a política do medo adquire centralidade.A insegurança diante das transformações do trabalho, da violência, da perda de renda e das mudanças culturais oferece terreno fértil para discursos que prometem restaurar uma ordem supostamente perdida. As plataformas digitais ampliam a circulação dessas narrativas, transformando indignação em atenção e antagonismo em identificação política.
O adversário deixa de ser alguém com quem se disputa um projeto de país e passa a representar uma ameaça permanente.É nesse terreno que se desenvolve uma revolução cultural cuja profundidade não pode ser reduzida à histeria coletiva ou ao comportamento de indivíduos que aprenderam a levar a desumanização do outro aos limites do tolerável. O bolsonarismo não inventou o medo, o ressentimento ou a desigualdade. Mas construiu uma linguagem política capaz de mobilizá-los, atribuindo rostos e nomes às frustrações de uma sociedade que já não reconhece nas promessas do futuro a segurança que imaginava possuir.O mundo do trabalho mudou, as ambições mudaram, e os sonhos também.Não pretendo contestar o medo de quem percebe que as garantias de ontem talvez não sejam suficientes para enfrentar as incertezas de amanhã.
Como alguém que atua na gestão pública de Ciência, Tecnologia e Inovação, no Instituto Federal da Paraíba, acompanho uma transformação econômica e tecnológica que alcança desde as formas de produção até os fundamentos materiais da soberania dos tecnológica.Não é preciso conhecer os algoritmos que organizam a circulação de informações para perceber que alguma coisa mudou profundamente na maneira como experimentamos a realidade. Também não é necessário compreender a arquitetura dos grandes modelos de inteligência artificial para sentir que o trabalho, a renda, as profissões e as expectativas de ascensão social estão sendo submetidos a uma reorganização de proporções históricas.
O problema começa quando esse medo encontra quem lhe ofereça um inimigo em vez de uma explicação. No nosso caso, a ocasião encontra quem transforme a insegurança em projeto de poder.
O medo é uma das emoções mais poderosas da experiência humana. Sobre ele atuam diferentes formas de violência e intimidação, inclusive o terrorismo, que procuram instalar na vida cotidiana a expectativa permanente de uma ameaça. Onde o medo se torna uma experiência coletiva, floresce a política do medo: a utilização deliberada do desejo legítimo de proteção para justificar medidas excepcionais, ampliar mecanismos de vigilância e naturalizar restrições às liberdades.
O cidadão aceita ser vigiado porque acredita que a vigilância se destina ao “outro”. Aceita a violência porque imagina que ela alcançará apenas os perigosos. Tolera a suspensão de garantias porque confia que continuará protegido por elas. E, quando percebe que os instrumentos concebidos para controlar os inimigos também podem ser utilizados contra si, frequentemente já contribuiu para legitimar sua existência.Essa é uma das contradições mais perturbadoras da política: pessoas que reivindicam liberdade podem aderir a projetos que ampliam o controle sobre suas próprias vidas.
Não quero ser o falso profeta dos tempos futuros, tampouco anunciar uma catástrofe inevitável, mas seria igualmente irresponsável ignorar o que já está diante de nós: uma democracia submetida a tensões profundas, atravessada pelo ódio, pela mentira, pela indignação e por essa emoção humana que tão facilmente converte a busca por proteção em disposição para obedecer.
Eis o ponto em que a revolução cultural encontra seu programa econômico.
A discussão sobre a desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, as regras de reajuste da remuneração básica e a eliminação de vinculações constitucionais de despesas públicas não é um debate meramente contábil. São escolhas que, quando efetivamente propostas, dizem respeito à distribuição dos riscos da vida em sociedade.
A Constituição de 1988 não estabeleceu garantias sociais porque seus constituintes desconhecessem as dificuldades econômicas do país. Estabeleceu-as porque conheciam as consequências históricas de uma sociedade que relegou milhões de brasileiros à própria sorte.A vinculação de despesas com educação e saúde, a proteção previdenciária e o salário mínimo como referência de dignidade material representam escolhas políticas sobre o que não deveria depender exclusivamente das oscilações do mercado ou das conveniências de cada governo.
O que não se pode é ocultar a dimensão distributiva dessas decisões sob a aparência de uma necessidade técnica incontestável.Quando a proteção social passa a ser apresentada exclusivamente como despesa, e não também como condição de desenvolvimento, altera-se a própria compreensão das responsabilidades do Estado.Enquanto determinados discursos econômicos latino-americanos apresentam a redução do Estado como condição necessária para a prosperidade, os Estados Unidos mobilizam seu poder fiscal, tecnológico, regulatório e geopolítico para disputar o controle de semicondutores, inteligência artificial, energia e cadeias estratégicas de suprimento.Não há propriamente uma retirada do Estado da economia mundial. Há uma disputa sobre onde ele deve atuar, quais interesses deve proteger e quem se apropriará dos resultados de sua intervenção.
A pergunta, portanto, não é simplesmente se queremos mais ou menos Estado.É para quem o Estado trabalha e quem pagará a conta das escolhas que ele fizer.Flávio Bolsonaro surge nesse cenário com uma vantagem comunicacional. P
arece camarada, fala com desenvoltura, carrega a informalidade carioca de quem conhece os códigos da proximidade popular. Sua retórica antissistema convive, entretanto, com uma trajetória construída dentro das próprias instituições que pretende transformar.
A promessa de acabar com o sistema pode ser formulada por quem passou praticamente toda a vida adulta participando dele. E isso não necessariamente enfraquece o discurso diante de seus apoiadores. Em determinadas circunstâncias, pode até fortalecê-lo, porque o sistema deixa de designar instituições, práticas ou estruturas identificáveis e passa a representar tudo aquilo que o público foi levado a rejeitar.
A política transforma-se em uma sucessão de inimigos a derrotar. O alerta dispara quando uma sociedade que aprende a reconhecer inimigos em toda parte corre o risco de desaprender a reconhecer seus próprios interesses.
Não, Flávio Bolsonaro não é Hitler. A comparação direta seria historicamente precipitada e analiticamente insuficiente. Mas a recusa de equivalências fáceis não nos obriga a abandonar o estudo das condições pelas quais sociedades democráticas podem normalizar a exclusão, a perseguição e o enfraquecimento progressivo de suas instituições.
Seria absurdo exigir que a história se repetisse integralmente para reconhecer os mecanismos que tornam possíveis suas tragédias.As Leis de Nuremberg não surgiram em um vazio histórico. Foram parte de um processo de institucionalização da perseguição racial pelo regime nazista. Sua singularidade deve ser preservada, precisamente para que possamos compreender a gravidade de transformar a desumanização em norma jurídica.
O que importa não é a existência de uma identidade automática entre personagens e épocas, mas a maneira como o medo, a propaganda, a fabricação de inimigos e a erosão das garantias institucionais podem alterar os limites do politicamente aceitável.
Porque a democracia não desaparece quando alguém anuncia seu fim, é esvaziada quando suas instituições permanecem formalmente de pé, mas deixam de proteger aquilo que justificava sua existência.A democracia brasileira não enfrenta apenas o desafio de administrar seus conflitos. Enfrenta o desafio de impedir que o medo se torne o princípio organizador de sua vida política.Porque o problema das soluções apresentadas como definitivas não está somente no que prometem resolver.
Está também naquilo que uma sociedade pode aceitar perder para vê-las realizadas.Porque uma promessa de salvação nacional precisa ser julgada não pela grandeza de suas palavras, mas pelo país que suas escolhas efetivamente construirão.