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3 de novembro de 2026 · Blog do Daniel, Economia

O Brasil precisa se desindexar da Faria Lima para ser nação

Defender a desvinculação de aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada do salário mínimo, ou apresentar reformas administrativas que enfraquecem a capacidade estatal, parece ser o horizonte de progresso que uma parcela da Faria Lima consegue oferecer ao país. Mudam as versões, os porta-vozes e as apresentações. Permanece a disposição de tratar direitos como obstáculos ao equilíbrio da economia. São propostas pensadas para garantir a taxa de retorno do investimento da atividade especulativa, que comprometem a capacidade de o Brasil construir uma agenda de crescimento que promova condições para desenvolvimento nacional, com dinamização econômica e inserção nas cadeias globais de valor..

Vivemos há décadas numa espiral de reformas pró-mercado, anunciadas nas manchetes como a solução definitiva para uma economia que nunca cresce o suficiente. A reforma da vez promete destravar investimentos, recuperar a confiança e inaugurar a prosperidade. Depois vem outra. E outra. A população envelhece esperando os benefícios de um sacrifício que jamais termina.

Enquanto isso, uma das engrenagens centrais do problema permanece protegida do debate: as condições de financiamento do Estado. Embora a dívida brasileira seja predominantemente denominada em moeda nacional, sua estrutura transmite as decisões sobre os juros básicos para uma parcela expressiva do custo fiscal. Em setembro de 2026, 51,60% da Dívida Pública Federal estava em títulos de taxa flutuante, predominantemente vinculados à Selic. Seu prazo médio era de 4,10 anos, e quase um quinto do estoque venceria nos 12 meses seguintes.¹

O credor não precisa esperar o vencimento para se beneficiar da elevação da Selic nos títulos que a acompanham. A remuneração se ajusta durante a vigência do papel. Eis a obscenidade: uma decisão apresentada como remédio para os preços também encarece o financiamento público; depois, o agravamento das contas reaparece como argumento para exigir novos cortes. A conta dos juros cresce, e o diagnóstico recai sobre a despesa social.

O mecanismo tem consequências distributivas, por mais que seus defensores prefiram apresentá-lo como simples técnica.

Os nossos agiotas de gravata desfrutam de uma estrutura na qual parte relevante da remuneração acompanha o aperto monetário. Isso não significa que todo título pós-fixado seja sempre mais caro que um prefixado: os investidores também podem exigir taxas elevadas para fixar antecipadamente sua remuneração.

O ponto que precisa ficar claro é: a indexação à Selic transmite ao Tesouro o custo das altas da taxa básica. Essa escolha institucional merece tanto escrutínio quanto o orçamento de uma universidade, e essa história precisa ser contada direito.

Os juros pós-fixados não nasceram com a crise do petróleo, e a indexação brasileira antecede os choques dos anos 1970. As Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional, criadas em 1964, já incorporavam correção monetária. A vinculação direta dos títulos públicos aos juros de curtíssimo prazo ganhou forma posteriormente, com as Letras do Banco Central, em 1986, e as Letras Financeiras do Tesouro, em 1987.

São etapas distintas de uma trajetória de proteção financeira em meio à instabilidade.²

Os choques do petróleo de 1973 e 1979, por sua vez, atingiram uma economia dependente da importação de energia. O regime militar recorreu ao financiamento externo para sustentar investimentos, num ambiente de abundância de crédito internacional. Uma parcela importante desses empréstimos tinha juros flutuantes. Quando os Estados Unidos elevaram fortemente suas taxas, a partir de 1979, o custo da dívida brasileira disparou. Aquilo que parecia dinheiro fácil revelou a violência da dependência: o país havia contratado compromissos cujo peso podia aumentar por decisões tomadas fora de suas fronteiras.³

Por isso, causa espanto a seletividade de certas memórias econômicas. O crescimento durante a ditadura recebe a iluminação generosa do “milagre”; outros períodos de expansão são prontamente rebaixados a “voos de galinha”. A comparação séria exige examinar produtividade, investimento, emprego, distribuição de renda e sustentabilidade. A nostalgia autoritária prefere uma fotografia do PIB, cuidadosamente recortada para esconder quem ficou fora dela.

Sim, o Brasil cresceu durante a ditadura. Cresceu com concentração de renda e repressão política, enquanto necessidades elementares permaneciam sem atendimento para uma parcela enorme da população. A promessa de fazer o bolo crescer primeiro para depois dividir foi uma justificativa conveniente para adiar a distribuição e preservar os privilégios. O bolo cresceu, a concentração da renda disparou ⁴

Houve expansão industrial e investimentos importantes em infraestrutura. Reconhecer isso permite avaliar, com seriedade, as contradições daquele modelo. Grandes projetos foram executados sob um regime que restringia a fiscalização pública, reprimia a contestação e impedia o controle democrático. O financiamento externo ajudou a sustentar a expansão, mas também ampliou a exposição do país aos credores e às oscilações internacionais. Confundir empréstimo com generosidade estrangeira é uma ingenuidade pela qual gerações inteiras pagaram.

A crise da dívida, os choques externos, os conflitos distributivos, a indexação e os fracassos sucessivos de estabilização compuseram a longa deterioração inflacionária. Foram décadas de inflação elevada, com episódios de hiperinflação no final dos anos 1980 e no início dos anos 1990. Não foram vinte anos ininterruptos de hiperinflação, nem o petróleo explica sozinho o desastre.

O Plano Real, em 1994, rompeu essa trajetória e produziu uma conquista social decisiva: a estabilização da moeda. O tripé macroeconômico, entretanto, veio depois, em 1999, reunindo câmbio flutuante, metas de inflação e metas de resultado primário. Misturar as duas datas transforma uma construção histórica em doutrina sem passado.⁵

Também não há razão para converter o reconhecimento da estabilização em absolvição automática das privatizações realizadas no período. Cada operação precisa ser julgada por seus efeitos sobre investimento, tarifas, qualidade dos serviços, concorrência, receitas futuras e capacidade de planejamento. Controlar a inflação não torna toda alienação patrimonial necessária, eficiente ou benéfica ao país. A moeda estável não exige que o debate sobre o patrimônio público seja encerrado.

A obscenidade aparece quando se cobra eficiência de cada centavo destinado à realização de direitos, mas se trata o custo dos juros como uma espécie de fenômeno da natureza. A despesa financeira tem determinantes econômicos e institucionais. Juros, composição da dívida, prazos, crescimento e arrecadação interagem. A dívida não é uma pedra que caiu do céu sobre o orçamento.

O gasto público precisa ser discutido, fiscalizado e aperfeiçoado. Inclusive os subsídios, as renúncias tributárias e os incentivos concedidos ao setor privado. Eficiência exige avaliar resultados, alternativas e custos de oportunidade. Cortar um investimento pode melhorar uma conta imediata e comprometer a capacidade produtiva que sustentaria as contas futuras. A austeridade também precisa apresentar sua prestação de contas.

É por isso que economistas heterodoxos e pós-keynesianos precisam ocupar espaço no debate. Precisamos confrontar hipóteses, métodos e resultados, inclusive entre essas correntes. O país merece discutir o financiamento do desenvolvimento com liberdade intelectual suficiente para questionar aquilo que foi transformado em dogma.

A dívida pública não pode ser um tabu porque a agenda econômica brasileira está indexada ao pensamento medíocre da Faria Lima. Nenhum grupo profissional, nenhuma avenida e nenhuma carteira de investimentos receberam mandato para determinar os limites do futuro nacional. O Estado brasileiro nunca superou o estorvo das reformas e mais reformas, cujo resultado é mais sacrifício da população, enquanto a estrutura de remuneração financeira permanece acima de qualquer suspeita.

Então pergunto: a quem essa sucessão de remendos está servindo?

A política fiscal, nessa perspectiva, perde sua função na garantia de direitos de natureza prestacional, aqueles que exigem serviços, infraestrutura, profissionais e continuidade de financiamento. Saúde não se realiza por declaração de intenções. Educação não funciona com austeridade convertida em virtude abstrata. Um Estado dirigente precisa de instrumentos para coordenar investimentos, enfrentar desigualdades e transformar a estrutura produtiva.

É nesse debate que as intervenções de André Lara Resende incomodam tanto.

Um dos formuladores do Plano Real passou a questionar pressupostos que muitos apresentam como verdades encerradas. Isso não significa que todos os economistas vinculados à estabilização monetária tenham acompanhado sua trajetória. Tampouco significa que Lara Resende, Laura Carvalho, Monica de Bolle, Pedro Rossi, Thomas Palley e Thomas Piketty componham uma escola única. Há diferentes vertentes do pensamento econômico, cujas diferenças são relevantes.

Contribuem por caminhos distintos, ajudam a retirar a discussão econômica do estreito corredor em que desenvolvimento significa apenas cortar despesas e conquistar a aprovação dos detentores de patrimônio.

A autonomia do Banco Central também precisa ser discutida nesse terreno. Pois a pretexto de proteger a política monetária de pressões governamentais de curto prazo que possam comprometer a estabilidade, o que se comete com a taxa básica de juros mais alta do planeta é um Estadicídio.

Olha, em um país de oligopólios, cartéis e grupos de influencia vorazes, a ideia do BC independente não me caiu bem. De toda forma, os desenhos institucionais variam entre países, assim como os mecanismos de controle e responsabilização. Autonomia, entretanto, não dispensa escrutínio democrático nem assegura, por si, supervisão financeira eficaz.

O caso de Daniel Vorcaro exige que essa diferença seja levada a sério. O crescimento do Banco Master ocorreu sob a supervisão do sistema regulatório brasileiro, e o próprio Banco Central posteriormente decretou sua liquidação. A pergunta não se resolve com a celebração ou a condenação abstrata da autonomia: exige examinar a atuação da fiscalização, os riscos identificados e a oportunidade das providências adotadas. A independência formal de uma instituição não pode funcionar como certificado antecipado de acerto.

Desde a quebra do Lehman Brothers, em 2008, tornou-se impossível sustentar com seriedade que o sistema financeiro se basta.

O resgate da estabilidade exigiu intervenção pública em escala extraordinária. Parte expressiva dos recursos foi recuperada; os programas de investimento em bancos do Tesouro americano, considerados em conjunto, devolveram mais do que receberam. Isso não apaga o essencial: diante do risco de colapso, garantias, liquidez e capacidade de intervenção estatal sustentaram o sistema.

A questão distributiva permanece: quem recebe proteção imediata e quem suporta desemprego, perda de moradia e anos de reconstrução? A promessa de tornar a América “great” não tem “again”, e não responde a essa contradição. Um país pode recompor os balanços de suas instituições financeiras sem recompor, na mesma medida e no mesmo prazo, a segurança material de sua população.

Também é preciso observar a seletividade internacional da austeridade.

Os países que disputam liderança tecnológica mobilizam compras públicas, subsídios, crédito e investimentos em energia, semicondutores e transformação produtiva. Na Europa, as pressões sobre moradia e serviços públicos convivem com compromissos crescentes de financiamento militar. A meta assumida pelos integrantes da Otan em 2025 prevê alcançar, até 2035, despesas equivalentes a 5% do PIB em defesa e segurança, distribuídas entre diferentes categorias. Não se pode atribuir toda carência social ao orçamento militar, mas tampouco se pode esconder que as prioridades orçamentárias resultam de escolhas políticas.

No Brasil, muitas vezes o debate começa depois que essas escolhas já foram naturalizadas. A inflação aparece como um número sem história, ao qual se oferece a taxa de juros como resposta quase automática. Desaparecem as perguntas sobre a origem da alta: energia, alimentos, câmbio, logística, conflitos internacionais, concentração de mercado ou excesso de demanda. Os juros podem influenciar demanda, crédito, câmbio e expectativas, mas não reabrem uma rota marítima nem produzem fertilizantes.

O fechamento do transporte de cargas pelo Estreito de Ormuz, registrado pelo próprio Ministério de Minas e Energia entre as razões para monitorar o abastecimento em 2026, mostra por que esse contexto importa. Uma perturbação dessa escala alcança petróleo, fretes e cadeias produtivas. Ter maior capacidade doméstica de refino e planejamento energético amplia os instrumentos de resposta, embora não elimine a exposição brasileira aos preços internacionais.

Por isso, a venda de ativos estratégicos precisa ser examinada para além da receita imediata. Vender patrimônio gera uma entrada de caixa; não cria, por si, uma fonte recorrente de receitas. A conta completa inclui os rendimentos futuros, os investimentos necessários, os custos evitados e a capacidade de coordenação que se conserva ou se perde. Tratar a alienação de um ativo como solução permanente para o financiamento é confundir uma operação patrimonial com a sustentação de uma estratégia.

Essa discussão alcança refinarias, a transferência do controle da Eletrobras e a alienação de participações em transportadoras de gás. No caso dos gasodutos, a Petrobras permaneceu contratante de serviços de transporte depois de vender suas participações. A descrição precisa é essa: contratos de transporte, com obrigações e condições próprias.

Nos fertilizantes, também é necessário distinguir venda, arrendamento e paralisação. As fábricas da Bahia e de Sergipe foram arrendadas e posteriormente retomadas pela Petrobras; a unidade de Araucária passou por hibernação e voltou a produzir. A precisão reforça a pergunta política: quanto custa interromper capacidades industriais que, mais tarde, se revelam necessárias à segurança produtiva do país?⁶

É por isso que reivindico Celso Furtado, Mariana Mazzucato e Piketty como referências para pensar o país: transformação estrutural, capacidade pública de orientar a inovação e enfrentamento da concentração de riqueza. Eficiência do gasto público é uma exigência legítima, e precisa incluir os resultados sociais e produtivos do orçamento, bem como o exame dos benefícios tributários concedidos a setores privados.

A Faria Lima funciona como uma auditoria que só encontra desperdício nos direitos dos outros. Não servem porque se servem.

Nesse ambiente, intriga ver André Lara Resende tratado como Judas em sábado de aleluia por questionar convenções econômicas, enquanto a intermediação financeira é tantas vezes apresentada como território de competência presumida. O Banco Master chegou a oferecer CDBs com remuneração de 140% do CDI. Todo mundo sabia que eram títulos podres. A discussão sobre os incentivos da cadeia de distribuição não pode desaparecer atrás do fascínio pela rentabilidade anunciada.

A Faria Lima é uma grande BET.

O futuro coletivo passa a ser observado como posição financeira. A reeleição de Lula, diante de Flávio Bolsonaro, colocou os os agentes do Deus mercado perdendo as fichas para o cassino.

Não é pecado questionar o hábito de converter a reação de investidores em julgamento superior sobre a escolha dos eleitores. Isso diz menos sobre Lula do que sobre a hierarquia que alguns pretendem estabelecer entre patrimônio e democracia.

O Brasil precisa se desindexar da Faria Lima para ser nação. Precisa recuperar a capacidade de discutir juros, tributação, crédito, investimento e propriedade a partir de um projeto de desenvolvimento. Inclusive quando empresas recorrem aos instrumentos legais de renegociação de dívidas: se a reorganização dos compromissos privados pode preservar atividades econômicas, a discussão sobre financiamento público também merece considerar os efeitos de longo prazo de suas escolhas.

A sanha reformista deteriora o Estado Democrático de Direito quando transforma, de maneira permanente, sua capacidade de cumprir direitos em variável de ajuste, assim como revela o sadismo de quem acha normal exigir sacrifícios da população sem submeter os benefícios fiscais dos setores favorecidos ao mesmo rigor.

O que fazem? Defendem, em praça pública, a disciplina para o Estado. Falta saber quando aceitarão discutir, com igual disposição, a disciplina dos privilégios.