O corte de R$ 200 bilhões que serve como profecia do caos, com plano econômico que rebaixa o Brasil diante de um cenário internacional que projeta a forte intervenção dos Estados para impulsionar e dinamizar as economias

Daniela Marques, principal assessora de Flávio Bolsonaro, promete corte no gasto impraticável, considerando a margem nas despesas discricionárias. O que sobra para o país?
CONTRAPONTO | BLOG DO DANIEL
Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, declarou em setembro de 2026 que Milei constitui uma referência para a redução da burocracia e da tributação. Sua equipe também defende um amplo programa de revisão normativa e ajuste das despesas públicas. É legítimo discutir a eficiência administrativa e a qualidade do gasto. O que não se pode dispensar é a demonstração de que as medidas propostas correspondem às condições econômicas brasileiras e aos objetivos de desenvolvimento que o país precisa alcançar.
A Argentina que Milei encontrou em dezembro de 2023 atravessava uma emergência monetária e cambial, com inflação anual superior a 200%, fragilidade das reservas internacionais e dificuldades recorrentes de financiamento externo. O Brasil apresenta outro quadro: dívida pública predominantemente denominada em moeda nacional, reservas internacionais expressivas, mercado interno de grande escala e relações comerciais diversificadas.
O Brasil dispõe de oportunidades relevantes em energia, agroindústria, minerais críticos, infraestrutura digital, pesquisa científica e manufatura avançada. Transformá-las em empregos qualificados, produtividade e renda exige instituições capazes de coordenar investimentos e negociar a inserção do país nas cadeias internacionais de produção.
Por isso, considero insuficiente avaliar um Tesouraço de R$ 200 bilhões apenas pela economia orçamentária prometida. Antes, é necessário esclarecer em quanto tempo o corte seria realizado, quais despesas seriam afetadas e como a proposta preservaria os investimentos necessários ao crescimento. Sem essas informações, não é possível demonstrar que o ajuste produziria os resultados econômicos anunciados.
A experiência argentina deve ser estudada com atenção, inclusive pelos avanços alcançados na estabilização. Mas seus custos sociais, suas fragilidades remanescentes e as diferenças estruturais em relação ao Brasil precisam fazer parte da comparação.
Um debate honesto sobre política econômica não pode escolher apenas os indicadores que favorecem determinada experiência internacional. Precisa considerar o conjunto dos resultados, as condições em que foram produzidos e sua possibilidade real de aplicação ao Brasil.
Para mim, essa é a questão fundamental: não basta apresentar um plano para equilibrar as contas públicas. É preciso demonstrar como esse equilíbrio se articula com uma estratégia capaz de ampliar a produtividade, distribuir renda e assegurar melhores condições de vida à população brasileira.
Enquanto as grandes potências ampliam o investimento estatal para disputar o futuro da economia, o Tesouraço de R$ 200 bilhões propõe reduzir despesas públicas sem explicar como o Brasil preservaria sua capacidade de transformar investimentos estrangeiros, recursos naturais e mercado interno em indústria, tecnologia, empregos e desenvolvimento.
Para sustentar a crítica ao Tesouraço, vale demonstrar que as grandes potências não estão simplesmente reduzindo o Estado: estão utilizando seu poder financeiro, tecnológico e regulatório para reorganizar a produção e disputar mercados.
Essa intervenção assume várias formas: subsídios industriais, créditos tributários, financiamento público de pesquisa, compras governamentais, bancos de desenvolvimento, participação acionária e políticas de conteúdo local.
VAMOS AO QUADRO GERAL DAS POTÊNCIAS?

No Brasil, essa perspectiva de desenvolvimento já encontra expressão concreta em um conjunto de políticas públicas que procuram reconstruir as capacidades produtivas, científicas e tecnológicas nacionais. A Nova Indústria Brasil (NIB), com previsão de mobilização de R$ 300 bilhões em financiamentos até 2026 e uma carteira ampliada de instrumentos financeiros, articula-se à Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, ao fortalecimento do FNDCT, à atuação do BNDES e da Finep, ao Novo PAC, ao Plano de Transformação Ecológica e às políticas de transformação digital e inteligência artificial. Não se trata de iniciativas isoladas, mas de uma tentativa de coordenar crédito, investimento público, pesquisa científica, infraestrutura e demanda produtiva em torno de objetivos nacionais.
Ao direcionar recursos para a neoindustrialização, a descarbonização, a saúde, a infraestrutura, a agroindústria e as tecnologias digitais, essas agendas procuram enfrentar um dos problemas históricos identificados por Celso Furtado, que nos tranca na condição de economia potente, mas ainda subdesenvolvida: a dificuldade brasileira de converter crescimento econômico e disponibilidade de recursos naturais em diversificação produtiva, autonomia tecnológica e distribuição de renda.
Os resultados dependem da continuidade dos investimentos, da execução dos projetos, das contrapartidas industriais e da capacidade de transformar financiamento em produtividade e empregos qualificados. O que não se pode negar é que existe uma arquitetura institucional orientada ao desenvolvimento, cuja consolidação exige avaliação e aperfeiçoamento, e não apenas uma discussão sobre redução indiscriminada das despesas públicas.
Estados Unidos: subsídios, incentivos fiscais e participação estatal

O governo norte-americano criou incentivos para instalar e expandir fábricas de semicondutores em território nacional. O programa também prevê US$ 11 bilhões para pesquisa e desenvolvimento. O objetivo declarado é reduzir a dependência de cadeias asiáticas e preservar a liderança tecnológica norte-americana.
A intervenção não ficou apenas na legislação. Segundo o órgão federal de auditoria GAO, até abril de 2026 haviam sido desembolsados US$ 13,1 bilhões em incentivos diretos, equivalentes a aproximadamente 42% dos US$ 31,5 bilhões então contratados nessa modalidade. O programa alcançava 49 projetos em 24 empresas em julho de 2026.
A lei norte-americana de 2022 conhecida como Inflation Reduction Act estabeleceu créditos fiscais para energia limpa, veículos elétricos e eficiência energética. O GAO identificou 21 benefícios tributários energéticos, associados a estimativas de pelo menos US$ 200 bilhões em receitas tributárias não arrecadadas.
A mensagem econômica é clara: a potência que frequentemente defende a concorrência internacional também mobiliza o orçamento federal para decidir onde determinadas tecnologias serão produzidas.

Intel Aquisição de ações ordinárias e direito contingente de aquisição adicional US$ 8,9 bilhões, para participação inicial de 9,9%.
No caso da MP Materials, ações preferenciais conversíveis, financiamento, garantia de preço e compras futuras, que custaram US$ 400 milhões em instrumento acionário, participação potencial relevante
No caso da Lithium Americas, a participação direta e os direitos de aquisição vinculados ao projeto Thacker Pass Participações de aproximadamente 5% na empresa e no projeto, segundo a documentação da operação
Na Trilogy Metals, o Investimento acionário estratégico em minerais críticos chega aos US$ 35,6 milhões autorizados, sujeitos à estruturação e execução
Na Vulcan Elements o governo agiu com estratégia, combinando investimento de capital, financiamento e instrumentos de participação. A Operação federal foi anunciada em 2025
Na U.S. Steel / Nippon Steel a intervenção do Estado enquadra–se como Golden share, com direitos especiais de veto, sendo considerado direito societário estratégico, sem aquisição convencional de participação financeira.
A contratação pública tem uma particularidade: o governo não apenas financia empresas, mas compra os produtos e serviços que tornam seus negócios economicamente viáveis.
A lista é interessante:
- Palantir — Exército dos EUA Até US$ 10 bilhões, durante dez anos, para software, análise de dados e IA. Consolida 75 contratos anteriores; teto, não obrigação de gasto.
- Microsoft — acordo com Dell Federal Systems US$ 9,7 bilhões em acordo-quadro de cinco anos para licenciamento, nuvem e serviços digitais militares.
- AWS, Microsoft, Google e Oracle — JWCC Até US$ 9 bilhões em computação em nuvem para defesa, distribuídos entre fornecedores conforme ordens de serviço.
- OpenAI, Anthropic, Google e xAI — Até US$ 200 milhões por empresa, em acordos para protótipos e aplicações avançadas de IA.
- SpaceX — NASA Contrato original de US$ 2,6 bilhões em 2014 para transporte comercial de tripulações, posteriormente ampliado.
A NASA oferece um exemplo histórico importante. Seus contratos com empresas privadas ajudaram a desenvolver uma indústria comercial de transporte espacial.
A agência informa que os contratos originais de 2014 somaram US$ 6,8 bilhões, distribuídos entre Boeing e SpaceX.
Uma auditoria de 2026 mostra que o valor total posteriormente ultrapassou US$ 8 bilhões e documenta diferenças significativas de desempenho entre as duas empresas.
Isso revela tanto o potencial quanto os riscos da contratação pública orientada por missões: ela pode desenvolver capacidades industriais, mas exige fiscalização, competição, avaliação de resultados e mecanismos para lidar com atrasos e falhas.
União Europeia: política industrial, crédito e compras públicas

O Clean Industrial Deal mobiliza instrumentos de financiamento, garantias, subsídios e regras de compras públicas para favorecer a descarbonização e a produção industrial europeia. A Comissão pretende mobilizar mais de € 100 bilhões, incluindo mecanismos que podem destravar até € 50 bilhões em investimentos por meio do InvestEU. Esses montantes não devem ser somados indiscriminadamente, pois alguns mecanismos integram o mesmo pacote.
Em março de 2026, a Comissão apresentou uma proposta de aceleração industrial com critérios de produção europeia e de baixa emissão de carbono para determinados contratos e mecanismos de apoio público. Isso significa utilizar o poder de compra e de financiamento do Estado para criar demanda por produtos fabricados na Europa.
Na indústria de semicondutores, a legislação europeia prevê mais de € 43 bilhões em investimento público, enquanto a combinação de recursos públicos e privados induzidos pela política pode ultrapassar € 100 bilhões até 2030. A Comissão também informa que aprovou um auxílio estatal italiano de € 2 bilhões para apoiar uma nova instalação da STMicroelectronics.
Aqui a intervenção ocorre tanto do lado da oferta, financiando fábricas e pesquisa, quanto do lado da demanda, direcionando compras e incentivos para produtos considerados estratégicos.
China: planejamento estatal, bancos públicos e fundos industriais

No orçamento de 2026, a China previu a emissão de 1,3 trilhão de yuans em títulos especiais de longo prazo, dos quais 800 bilhões foram destinados a estratégias nacionais e áreas de segurança econômica. Também previu 755 bilhões de yuans em investimentos pelo orçamento central.
O Ministério das Finanças chinês informou, em outubro de 2026, que no primeiro semestre haviam sido direcionados 606,46 bilhões de yuans de títulos especiais para 936 grandes projetos.
Na política tecnológica, a terceira fase do fundo estatal chinês de semicondutores, criado em 2024, possui capital registrado de 344 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 47,5 bilhões à época). Trata-se de capital de um fundo de investimento, não de despesa anual do
A China combina investimento direto, empresas estatais, fundos de participação, bancos públicos e metas industriais. Seu modelo não é diretamente transferível ao Brasil, mas demonstra a importância atribuída à coordenação estatal na disputa por tecnologias estratégicas.
Japão: financiamento público para inteligência artificial, semicondutores e energia

O Japão estabeleceu um programa de apoio público superior a 10 trilhões de ienes para inteligência artificial e semicondutores até o ano fiscal de 2030. A intenção declarada é induzir mais de 50 trilhões de ienes em investimentos públicos e privados ao longo de dez anos.
Na transformação energética, o governo prevê apoio fiscal da ordem de 20 trilhões de ienes em dez anos, financiado por títulos específicos de transição verde. O Ministério das Finanças reconhece explicitamente que o programa busca viabilizar investimentos que seriam difíceis de realizar apenas pela iniciativa privada.
Essa é uma demonstração particularmente clara do argumento de Mazzucato, a política pública pode alterar o horizonte de risco e retorno dos investimentos privados, permitindo que projetos tecnologicamente estratégicos se tornem economicamente viáveis.
O Quadro Comparativo

O que esses números revelam é uma contradição que considero central no debate econômico brasileiro. Enquanto insistimos em discutir o Estado quase exclusivamente pelo tamanho de suas despesas, as maiores potências econômicas utilizam o orçamento público, o crédito, os contratos governamentais e até a participação societária para construir suas vantagens competitivas.
Analisando o quadro geral, considerando vertentes econômicas da tradição pós-keynesiana e do estruturalismo de Celso Furtado, o investimento não é uma consequência automática da confiança dos mercados.
Depende de expectativas de demanda, financiamento, infraestrutura e decisões políticas capazes de reduzir incertezas. Mariana Mazzucato aprofunda essa compreensão ao demonstrar que o Estado não apenas corrige falhas de mercado, mas participa da criação de tecnologias, mercados e oportunidades de investimento.
Thomas Piketty acrescenta uma questão incontornável: quem se apropria da riqueza produzida e como as instituições econômicas reproduzem ou enfrentam sua concentração?
Temos um mercado interno expressivo, recursos naturais estratégicos, uma base científica relevante e possibilidades de inserção em diferentes cadeias internacionais, mas essas vantagens não se transformam espontaneamente em produtividade, autonomia tecnológica e melhores salários.
Sem coordenação econômica e investimento de longo prazo, podemos continuar exportando matérias-primas, importando tecnologias e reproduzindo uma estrutura de renda profundamente desigual.
Para uma agenda econômica, significa exigir que o gasto público seja avaliado também por sua capacidade de ampliar a produção, induzir investimentos privados, criar empregos qualificados e distribuir os resultados do crescimento. A responsabilidade fiscal é indispensável, mas não pode ser confundida com a ideia de que reduzir despesas, por si só, constitui uma estratégia de desenvolvimento.
A pergunta econômica decisiva não é quanto Estado podemos eliminar, mas quais capacidades produtivas e sociais precisamos construir, quem financiará essa transformação e quem ficará com os seus resultados.