
A interferência estrangeira não começou com os algoritmos. Antes de disputar territórios, projetos de dominação procuram disputar o significado dos acontecimentos: quem é a vítima, quem representa uma ameaça e qual intervenção deve parecer necessária.
Em 1938, na crise dos Sudetos, a Alemanha nazista e seus apoiadores locais difundiram falsas acusações de maus-tratos contra a população de origem alemã na Tchecoslováquia. A fabricação de uma emergência oferecia justificativa à ambição territorial de Hitler. O regime que tinha Joseph Goebbels à frente da propaganda apresentava a expansão alemã como proteção de uma comunidade ameaçada. A crise desembocou no Acordo de Munique, negociado sem a participação do governo tchecoslovaco, e na ocupação dos Sudetos. A agressão era apresentada como defesa; a violação da soberania, como solução.
A lição histórica está nessa articulação entre propaganda, aliados internos e objetivos externos. Uma operação de influência pode explorar tensões existentes, reorganizá-las em uma narrativa de perseguição e oferecer a intervenção estrangeira como resposta ao problema que ajudou a agravar.
Décadas depois, as plataformas digitais alteraram as condições dessa disputa. A Primavera Árabe tornou visível sua capacidade de conectar manifestantes, compartilhar experiências e ampliar a circulação de relatos que confrontavam versões oficiais. No Egito, pesquisas sobre as mobilizações de 2011 identificaram uma participação importante, embora complexa, das redes na conexão e na motivação de participantes. As plataformas integravam um processo social que também dependia das ruas, das organizações e de outros meios de comunicação.
Essa experiência mostrou que a disputa política passara a incorporar infraestruturas privadas capazes de conectar públicos e fazer narrativas atravessarem fronteiras. A capacidade de ampliar denúncias e mobilizar solidariedade convive, nesses mesmos ambientes, com a possibilidade de organizar hostilidade e perseguição.
É na República Democrática do Congo que essa segunda dimensão mostra-se violenta e nefasta.
O material documentado pelas Nações Unidas mostra como narrativas de pertencimento nacional podem transformar comunidades inteiras em suspeitas. Em relatório publicado em março de 2021, o Escritório Conjunto das Nações Unidas para os Direitos Humanos registrou mensagens de incitação à hostilidade difundidas por meios de comunicação, redes sociais e manifestações de atores políticos e religiosos. Em torno da instalação da comuna rural de Minembwe, discursos apresentavam os Banyamulenge como imigrantes oriundos de Ruanda, contestando seu pertencimento à sociedade congolesa. Essas mensagens agravavam um contexto de violência já existente.
O mecanismo que merece atenção é o que consolida na esfera pública a identidade de uma comunidade, que passa a ser tratada como prova de sua suposta ligação com um inimigo externo. Vizinhos são apresentados como infiltrados, e a origem atribuída às pessoas substitui a apuração de suas condutas.
A hostilidade encontra uma justificativa política quando a perseguição passa a ser narrada como defesa da nação.
Em comunicação ao Conselho de Segurança, em 2022, a própria ONU descreveu a violência intercomunitária no Sul do Kivu como alimentada por discursos de ódio nos meios locais e nas redes sociais. Há, portanto, documentação que permite relacionar a circulação dessas mensagens à deterioração das condições de proteção das comunidades, sendo atribuído aos sistemas de recomendação impacto adicional sobre a violência.
O Congo torna concreta o poder da narrativa que se dá sob infraestruras privadas, concentradas nas mãos de poucos. Uma narrativa pode participar da produção das condições sociais da violência. Quando retira de determinadas pessoas o reconhecimento de que pertencem à comunidade política, pode tornar sua exclusão mais aceitável e sua proteção menos urgente.
Os Sudetos, a Primavera Árabe e o Congo são experiências distintas. Sua aproximação ajuda a perceber como os meios de comunicação participam da organização da ação coletiva , seja para contestar uma ditadura, legitimar uma intervenção ou disseminar hostilidade contra uma população.
Para o Brasil, a pergunta é sobre capacidade de conhecer e governar esses processos. Se uma operação explorar nossas divisões, quem poderá identificar seus responsáveis, reconstruir sua circulação e preservar as evidências? Se os dados permanecerem concentrados nas empresas que administram as plataformas, dependeremos delas até para compreender a extensão de nossa vulnerabilidade.
É essa a dimensão política do subdesenvolvimento informacional, em que uma sociedade se digitaliza, mas não constitui capacidades equivalentes para investigar e controlar as infraestruturas das quais depende. A conexão se expande, a autonomia permanece limitada, gerando dependência.
A soberania democrática exige que o país possa conhecer as condições em que sua vontade coletiva é formada. Sem essa capacidade, corremos o risco de descobrir tarde demais que aquilo que parecia apenas uma conversa entre brasileiros também era uma disputa organizada por poderes que não conseguimos enxergar.

Em 2011, durante a Primavera Árabe, o Facebook integrou as redes que conectaram manifestantes e fizeram circular narrativas contra governos autoritários. Dez anos depois, o relatório das Nações Unidas sobre o Congo documentava a disseminação de hostilidade nas redes contra os Banyamulenge, tratados como estrangeiros em seu próprio país. O documento não isola a responsabilidade dos algoritmos do Facebook, mas expõe o que o entusiasmo com a conexão deixava à sombra: ampliar a circulação de mensagens também pode ampliar o alcance da perseguição. Em outubro de 2023, a Anistia Internacional dirigiu a acusação à Meta: suas falhas e os sistemas de recomendação do Facebook contribuíram para graves violações contra a comunidade tigrínia na Etiópia. A promessa era conectar pessoas. A pergunta passou a ser quem responde quando essa conexão ajuda a colocá-las em perigo.
Em janeiro de 2025, depois desse histórico, a Meta anunciou o fim da checagem independente nos Estados Unidos e a reintrodução personalizada de conteúdo político, reduzido desde 2021. A empresa decide quando diminuir a presença da política, quando devolvê-la aos usuários e quais mecanismos de fiscalização dispensar, e apresenta essas escolhas como defesa da liberdade.
Há uma conveniência extraordinária nessa retórica, em que exercer poder sobre a distribuição das falas é protegido pelo direito não apenas de expresssar, mas de relacionar-se com a polis.
A liberdade de expressão interessa quando chega a hora de responder pelas consequências.
A Meta sabe o suficiente sobre nossos comportamentos para vender publicidade dirigida, e o modelo de negócios é rentável. Como troco, a preço de uma nação, a sociedade tem o direito de saber o suficiente sobre sistemas de recomendação, para fiscalizar os riscos que eles produzem.
Liberdade de expressão não é procuração em branco para governar o debate público. E soberania popular não pode ficar subordinada aos termos de uso de uma empresa estrangeira, que patrocina interesses da Casa Branca.