
Relatório reservado encaminhado ao governo e à Justiça Eleitoral aponta riscos de interferência externa. Tarifas, sanções e pressões diplomáticas entram no centro de uma disputa que envolve a soberania brasileira e os interesses estratégicos de Washington na América Latina.
A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, o Brasil enfrenta uma questão que ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro: até onde os Estados Unidos estão dispostos a ir para influenciar os rumos políticos da maior economia da América do Sul?
A preocupação não surgiu apenas nos discursos de campanha, tampouco se trata de especulação, ou teoria da conspiração. Está posta a mesa das autoridades brasileiras por meio de um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).
O documento, intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. Revelado pela Folha de S.Paulo em 19 de setembro, o relatório elevou a possibilidade de influência e interferência externa dos Estados Unidos a um nível de criticidade.
Para a Agência Brasileira de Inteligência o processo eleitoral brasileiro não caracteriza fato isolado na América do Sul, mas certamente tem centralidade nas aspirações de Washington de ter regentes de colonias, alinhados aos interesses dos Estados Unidos. Segundo as informações divulgadas, a ABIN relaciona o risco à estratégia do governo Donald Trump de reafirmar a hegemonia norte-americana na América Latina, conter a influência de potências concorrentes e ampliar o controle sobre recursos e infraestruturas estratégicas.
A a disputa eleitoral brasileira encontra-se não apenas sob a autodeterminação dos povos, baseada na democracia constitucional, e na soberania popular, mas inserida na arena geopolítica, em que o expansionismo do governo Trump a despeito do regime fundado após a segunda guerra mundial, vem suscitando controvérsias dentro e fora dos Estados Unidos.
Durante a guerra fria os Estados Unidos adotaram política de contenção sobre a América Latina, sob a justificativa de que a União Soviética era uma ameaça deliberadamente expansionista. Foi o subterfúgio para apoio e financiamento da Ditadura empresarial e Militar cujo início data de 1964, quando no dia 01/04, que em terras tupiniquins é conhecido como dia da mentira, o país amanheceu sob o solstício de uma revolução legalista com a narrativa de uma ameaça comunista que nunca foi factual.
Como a história se repete primeiro como farsa, depois como tragédia, a política de contenção dos Estados Unidos na América Latina ganhou novos contornos com o governo Donald Trump, pois já não se trata de impedir a expansão da influência de potência estrangeira hostil. Os Estados Unidos são uma potência, liderados por um presidente impopular dentro e fora do seu território, mas com o apoio de agentes econômicos que lucram na especulação, com contratos públicos escandalosos, e uma variedade de vantagens econômicas garantidas até mesmo por meio de participação societária do Estado Norte Americano – que viu o dolar valer menos que o ouro depois de décadas, e bateu recorde de endividamento.
Em um espaço independente, posso aqui expressar análise sobre o que se passa, e quando se trata de interferência estrangeira sobre a soberania nacional, esta premissa está no campo do inegociável, como também requer tratamento sério. Há opinião, como também apego ao factível.
A cadeia de suprimento e para infraestrutura tanto das Big Techs quanto do setor industrial intensivo em tecnologia dos Estados Unidos coloca o país em desvantagem com a China, uma autocracia de economia dirigente, que emerge enquanto ator econômico e militar insurgente aos caprichos de Washinton. Logo, seria tolice não dizer que o objetivo é conter o avanço econômico, tecnológico e estratégico da China sobre o Hemisfério Ocidental, estrangulando relações comerciais com Pequin, e conseguindo exercer domínio, que é bem mais que influência ou alinhamento, sobre um futuro governo Bolsonaro
A nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana recupera a Doutrina Monroe e estabelece como prioridade impedir que potências concorrentes ampliem seu controle sobre portos, infraestrutura energética, minerais críticos e cadeias produtivas essenciais. Para isso, os Estados Unidos combinam instrumentos diplomáticos, comerciais, financeiros e militares, procurando assegurar governos e parcerias alinhados aos seus interesses. Nesse cenário, a América do Sul deixa de ser apenas um espaço de influência política e passa a ocupar posição central na disputa pelas matérias-primas que sustentam a indústria tecnológica e militar. A contenção da China, portanto, não se limita a restringir sua presença na região.
Quanto a isto, em agosto o chefe do departamento de Estado norte-americano, Marco Rúbio publicou vídeo elucidativo sobre a doutrina adotada pelo país.
Há notável interesse econômico em reorganizar o acesso aos recursos estratégicos latino-americanos e influenciar as decisões políticas dos paísesque os possuem.
A escalada começou antes da eleição.
O relatório da ABIN foi produzido depois de uma sucessão de medidas norte-americanas que elevaram as tensões entre Brasília e Washington. Em 2025, o governo Trump recorreu a tarifas comerciais e sanções direcionadas a autoridades brasileiras, em meio às controvérsias sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em 2026, novas medidas econômicas e diplomáticas ampliaram o conflito.
Segundo as informações publicadas sobre o relatório reservado, a inteligência brasileira identificou uma tendência de intensificação das pressões, com instrumentos que poderiam ser ajustados conforme a reação das instituições e do governo brasileiro. A preocupação vai além de uma eventual manifestação pública de preferência por determinado candidato.
O impacto das tarifas não reduziu o superávit da balança comercial brasileira, tendo o país elevado o investimento estrangeiro, o que não afasta o caráter coercitivo das tarifas com impacto sobre cadeias produtivas.
Da tentativa de visita de diplomatas à retaliação contra a embaixadora brasileira
A escalada diplomática entre Brasil e Estados Unidos ganhou um capítulo particularmente sensível em julho de 2026, quando o governo brasileiro recusou os pedidos de visto de dois funcionários do Departamento de Estado norte-americano.
Riley M. Barnes e Samuel Samson, vinculados à área de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, pretendiam viajar ao Brasil em meio à campanha presidencial. Segundo autoridades brasileiras ouvidas pela Reuters, havia preocupação de que a missão fosse utilizada para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
A recusa não foi tratada pelo Palácio do Planalto em tom de escalada nas tensões entre Brasília e Washington. O governo brasileiro considerou que a visita poderia representar uma tentativa de influência externa sobre o debate eleitoral.
A reação de Washington veio em 4 de agosto. O Departamento de Estado anunciou a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, uma das diplomatas mais experientes do Itamaraty, com passagem pela representação brasileira nas Nações Unidas e pela chefia de gabinete do secretário-geral da ONU.
O governo Trump justificou a decisão como uma medida de reciprocidade. Além dos vistos negados aos funcionários norte-americanos, Washington apontou a demora do Brasil em autorizar a nomeação de Daniel Perez, aliado político do secretário de Estado Marco Rubio, para a embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
O episódio pode soar como mero detalhe para quem não compreende o prestígio do corpo diplomático brasileiro. O fato suscitou manifestações por parte do Palácio do Planalto, que, em nota oficial divulgada em 4 de agosto de 2026, respondeu à revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, com a seguinte declaração:
“Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.”
Na mesma nota oficial, o governo brasileiro afirmou que a aprovação de um embaixador estrangeiro depende da anuência do país que o receberá e que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas não estabelece prazo para essa decisão, em resposta à escalada de Washington sobre assuntos nacionais, com destaque para a defesa dos conglomerados tecnológicos, que operam com benefícios que direta ou indiretamente saem do Tesouro americano. A revogação do visto não significou a expulsão de Viotti, que pôde permanecer em Washington no exercício de suas funções. Ainda assim, a medida representou um instrumento de pressão diplomática em um momento de elevada tensão política entre os dois governos.
Aliás, o repertório de intervenção do Estado na economia é amplo e garante que as Big Techs sejam beneficiadas, pois o interesse público e a segurança nacional justificam as medidas necessárias para cruzar a linha de chegada na corrida para a inteligência geral, o passo seguinte da inteligência artificial.
Em outubro, a controvérsia chegou ao Congresso norte-americano. Um grupo de 12 deputados democratas cobrou explicações de Marco Rubio sobre os objetivos da visita de Barnes e Samson, as reuniões previstas no Brasil e a participação de autoridades da Casa Branca na decisão contra a embaixadora brasileira.
A sequência dos acontecimentos é relevante para compreender o alerta da ABIN sobre os riscos de interferência externa nas eleições de 2026. Há decisões diplomáticas documentadas, acusações oficiais de ambos os governos e questionamentos apresentados por parlamentares norte-americanos.
A existência dessas medidas, entretanto, não comprova por si só uma operação destinada a alterar o resultado eleitoral brasileiro. O que demonstra é que o processo eleitoral passou a integrar uma disputa diplomática mais ampla, na qual ambos os governos passaram a questionar a conduta do outro.
A tensão chegou ao ponto de transformar vistos diplomáticos e credenciais de embaixadores em instrumentos de uma disputa política que alcançou diretamente o ambiente eleitoral brasileiro.
São mecanismos diferentes, mas capazes de produzir consequências políticas.
O relatório reservado não está integralmente disponível ao público. Por isso, suas avaliações precisam ser conhecidas por meio das informações divulgadas pela imprensa, sem confundir a identificação de riscos com a comprovação de uma operação de interferência.
Washington anuncia uma nova Doutrina Monroe
O alerta brasileiro coincide com uma mudança declarada na estratégia norte-americana para assuntos de segurança nacional, em que Donald Trump não esconde a sanha expansionista, com maior ênfase sobre nações soberanas como Canadá, México e Groenlândia.
Na Estratégia de Segurança Nacional publicada pelo governo Trump, Washington apresenta o chamado Corolário Trump à Doutrina Monroe. O documento oficial reafirma a intenção dos Estados Unidos de preservar sua primazia no Hemisfério Ocidental e impedir que potências concorrentes ampliem o controle sobre recursos e ativos considerados estratégicos. Não há margem para interpretação diante do documento tornado público, menos ainda diante da sucessão de fatos que ocorreram na América do Sul e no Caribe ao longo de 2026.
Há uma correlação de forças em torno das agendas econômica, tecnológica e militar dos Estados Unidos.
Petróleo, minerais críticos, cadeias de suprimento, infraestrutura energética e capacidade industrial passaram a integrar a mesma agenda de segurança nacional. A América do Sul ocupa uma posição importante nessa estratégia por concentrar recursos indispensáveis à produção de tecnologias avançadas, equipamentos militares, semicondutores e sistemas de energia.
A relação com o Brasil tem ainda a dimensão dada pela proeminência do país nos BRICS, que implementam iniciativas que tendem a acelerar a desdolarização da economia por meio de transações comerciais baseadas em infraestruturas digitais de pagamento como o Pix, inovação brasileira alvo da retaliação de Washington por meio de tarifas e coerção econômica.
Nesse cenário, as escolhas de política externa e econômica de um futuro governo brasileiro interessam diretamente a Washington, que a esta altura atua em prol de grupos de interesse em lobby coordenado entre os que têm acesso ao Salão Oval.
Isso não comprova interferência eleitoral, mas dá o tom para a observação internacional sobre o processo político brasileiro, que passou a ser acompanhado sob a perspectiva da segurança e dos interesses estratégicos norte-americanos.
A denúncia chega ao Congresso dos Estados Unidos
Em 29 de setembro, os senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch enviaram uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio questionando a atuação do governo Trump em relação ao Brasil.
Os parlamentares acusaram a administração norte-americana de utilizar pressões econômicas, diplomáticas e políticas que poderiam enfraquecer as instituições democráticas brasileiras e comprometer a confiança no processo eleitoral. A carta menciona as tarifas e sanções adotadas contra o Brasil, além do encontro de Donald Trump com Flávio Bolsonaro na Casa Branca.
Os senadores solicitaram que Washington respeitasse o resultado das eleições brasileiras e evitasse novas medidas capazes de prejudicar as relações bilaterais.
A manifestação tem um significado político importante: a preocupação com a atuação de Trump no Brasil passou a ser expressa formalmente também por integrantes do próprio Congresso norte-americano.
Trata-se de uma cobrança política documentada, dirigida ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, pasta em que Marco Rubio busca a atenção pelos triunfos sucessivos na América Latina, na contramão do fracasso na empreitada contra o Irã, que aumentou o preço dos combustíveis.
A disputa chega à Justiça brasileira
No Brasil, a divulgação do relatório da ABIN foi seguida por iniciativas judiciais.
Em 23 de setembro, a campanha de Lula acionou o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral, alegando possível interferência norte-americana e questionando a atuação de integrantes da família Bolsonaro nas relações com o governo Trump.
Entre os episódios mencionados estavam tarifas comerciais, sanções contra autoridades brasileiras e contatos políticos mantidos com representantes norte-americanos. As alegações passaram a integrar uma controvérsia judicial sobre os limites da participação estrangeira no ambiente eleitoral brasileiro.
O presidente do TSE também declarou não haver evidências de interferência estrangeira no pleito.
Essas decisões e manifestações precisam ser consideradas. Elas mostram que as suspeitas não podem ser apresentadas como interferência comprovada. Ao mesmo tempo, não apagam a existência das pressões diplomáticas documentadas, das acusações formuladas no Congresso dos Estados Unidos nem da avaliação preventiva realizada pela inteligência brasileira.
A disputa eleitoral e os interesses sobre o Brasil
A eleição brasileira ocorre em um momento em que os Estados Unidos tratam o acesso aos recursos estratégicos da América Latina como prioridade de Estado.
As diferenças entre Lula e Flávio Bolsonaro em temas como BRICS, integração regional, comércio internacional e aproximação com Washington tornam a política externa uma dimensão relevante da disputa presidencial. O cálculo da vassalagem e da perda substancial da soberania não é bem comunicado aos eleitores, que até aqui projetam vitória de Flávio Bolsonaro. O fato que se impõe é que os interesses envolvidos ultrapassam a identidade dos candidatos.
O Brasil precisa decidir como negociar seus recursos minerais, quais condições estabelecer para investimentos estrangeiros e que capacidade industrial pretende construir em setores estratégicos.
A disputa pelas terras raras de Goiás, especialmente a operação envolvendo a Serra Verde, demonstra que essas questões já produzem consequências empresariais, institucionais e jurídicas concretas. A relação entre os interesses econômicos norte-americanos e as escolhas políticas brasileiras merece, portanto, investigação. Não porque todo investimento estrangeiro represente uma ameaça, mas porque a distribuição dos benefícios, o controle das cadeias produtivas e a autonomia das decisões nacionais são questões centrais para o desenvolvimento do país.
O alerta que permanece
A ABIN não apresentou ao público uma prova definitiva de interferência norte-americana nas eleições. O que veio a público foi uma avaliação de risco, produzida por um órgão de inteligência de Estado e encaminhada às autoridades responsáveis pela segurança institucional e eleitoral.
O alerta, porém, não surgiu no vazio. Foi acompanhado por medidas econômicas e diplomáticas concretas, por acusações formalizadas no Congresso norte-americano e por uma estratégia de segurança nacional que atribui à América Latina importância central para os interesses dos Estados Unidos.
A eleição brasileira é uma parte desse cenário; a disputa pelo petróleo, pelos minerais críticos e pelas cadeias tecnológicas é outra.
A questão que se apresenta ao Brasil vai além de quem ocupará a Presidência da República. Envolve a capacidade de suas instituições de proteger o processo democrático e assegurar que as decisões sobre o futuro econômico do país sejam tomadas pelos brasileiros.
É a partir dessa conexão entre poder político, recursos naturais e interesses internacionais que o Contraponto prepara o DOSSIÊ – SUL-AMERICANOS, uma investigação sobre a nova Doutrina Monroe e seus efeitos na América do Sul..