A eleição de Eduarda Campopiano e Lucas Pavanato, com votações expressivas em São Paulo, revela um fenômeno político que não pode ser explicado apenas pela radicalização do discurso conservador. Estamos diante de uma transformação nas formas de produção da visibilidade, da identificação coletiva e da representação política. Declarações controversas sobre feminismo, direitos das mulheres, identidade de gênero e políticas de igualdade deixam de circular apenas como manifestações individuais e passam a integrar uma dinâmica de confrontação permanente, na qual cada polêmica pode produzir novos conteúdos, ampliar o alcance das candidaturas e mobilizar comunidades digitais. A indignação, nesse ambiente, não representa necessariamente um obstáculo à popularidade: pode constituir um recurso de atenção, reconhecimento e mobilização eleitoral.

O que merece investigação, portanto, não é simplesmente por que milhões de eleitores aderem a essas candidaturas, mas como as infraestruturas algorítmicas participam da transformação do antagonismo cultural em capital político. Plataformas que organizam a circulação de conteúdos segundo mecanismos de recomendação, engajamento e monetização oferecem condições para que conflitos morais sejam reproduzidos em escala industrial. A controvérsia alimenta a audiência, a audiência produz visibilidade e a visibilidade pode ser convertida em influência e votos. Isso não significa reduzir o eleitor a uma vítima passiva da manipulação digital, mas reconhecer que suas escolhas se formam em ambientes atravessados por interesses econômicos, disputas ideológicas e assimetrias de poder.

 A questão central é compreender quem controla essas infraestruturas, quem se beneficia economicamente da circulação da hostilidade e como essa economia da atenção interfere na formação da vontade democrática.

As Big Techs, constituídas como centros hegemônicos de poder econômico, tecnológico e informacional, dispõem de uma capacidade sem precedentes de interferir nas condições em que se forma a vontade política. Não precisam determinar diretamente o voto de milhões de pessoas para exercer influência sobre a democracia. 

Basta considerar o poder que concentram sobre as infraestruturas de circulação da informação, os mecanismos de recomendação algorítmica e os critérios que definem quais discursos alcançarão visibilidade e quais permanecerão à margem do debate público. 

Nesse ambiente, o discurso simplista, capaz de provocar revolta, indignação ou ressentimento, encontra terreno fértil na fadiga de uma população submetida à precarização da vida, à insegurança econômica e ao descrédito das instituições. Problemas estruturais, cuja superação exigiria decisões políticas complexas, são reduzidos a antagonismos morais, inimigos facilmente identificáveis e promessas de soluções imediatas.

O paradoxo é que a indignação se converte em uma forma permanente de mobilização política sem necessariamente produzir qualquer horizonte de transformação da realidade que a alimenta. 

A revolta deixa de ser o ponto de partida para a construção de alternativas e passa a constituir um fim em si mesma, continuamente reproduzida por uma economia da atenção que encontra no conflito uma fonte de valorização econômica. A cada nova controvérsia, desloca-se o debate das condições materiais de existência para uma sucessão interminável de disputas simbólicas, enquanto questões fundamentais, como trabalho, renda, desigualdade, desenvolvimento e soberania, perdem centralidade.

Não se trata de negar a legitimidade da insatisfação popular, mas de compreender como ela pode ser apropriada e reorganizada por estruturas privadas de poder que não estão submetidas aos mesmos mecanismos de responsabilidade democrática exigidos das instituições públicas. A democracia enfrenta, assim, uma contradição decisiva: a vontade popular continua sendo expressa pelo voto, mas as condições informacionais em que essa vontade se constitui estão crescentemente subordinadas a interesses econômicos que escapam ao controle democrático.