Onde estão os votos da decisão?

Sabe qual é o contrário de uma verdade absoluta? Outra verdade absoluta.
Com 99,99% das seções totalizadas, Flávio Bolsonaro chega a 56.102.063 votos, ante 53.866.705 do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: 47,03% e 45,16% dos votos válidos, respectivamente.
Coloque em perspectiva a votação obtida por Flávio Bolsonaro.
Em 2018, Jair Bolsonaro recebeu 57.797.847 de votos no segundo turno. Em 2022, foram 51,0 milhões de votos no primeiro turno, e naquele ano conquistando 7.134.009 de votos no segundo e turno, chegou ao patamar de 58.206.354 de votos. A base Bolsonarista é numericamente cristalizada, territorialmente distribuída, com recortes territoriais, de gênero, raça, credo, aspirações, e alguns ingredientes fáceis de definir.
O dado revela algo politicamente incontornável: o bolsonarismo chega ao segundo turno com uma base eleitoral de enorme dimensão, mobilizada e, sobretudo, resiliente.
Não parece mais adequado tratar o fenômeno como uma onda passageira. Há uma cristalização eleitoral que atravessou 2018, sobreviveu à derrota presidencial de 2022 e, quatro anos depois, demonstra capacidade de transferência para outra candidatura.
E Lula?
Parte de 53,86 milhões de votos. A diferença é de aproximadamente 2,24 milhões de eleitores.
Não é uma distância que torne a virada inalcançável, tampouco é mero detalhe.
Ao conversar com um amigo, raposa antiga e certeira nos circuitos da estratégia política, fui imediatamente advertido:
“A maior cilada para a esquerda é entrar agora em autocrítica, em reflexões de DCE, comunicando para o Leblon de novela das oito. A pergunta é outra: o que Bolsonaro consegue mobilizar que a campanha de Lula terá de aprender em poucas horas?”
A provocação é incômoda justamente porque desloca o problema.
Eleições mobilizam interesses, identidades e, sobretudo, afetos. Poucos afetos possuem tanta potência mobilizadora quanto o medo e a indignação.
A extrema direita compreendeu isso há muito tempo, e aqui me refiro a uma rede transnacional de repertórios, atores, linguagens e estratégias de mobilização.
São os exímios na construção de ameaças, identificação de adversários. Tem ritmo e gramática para oferecer pertencimento, e transformar ansiedade social em urgência política.
Não é necessário que todos compartilhem exatamente as mesmas razões para votar. A eficácia está justamente em fazer medos distintos convergirem para uma mesma decisão eleitoral. O medo oferece a ameaça, a indignação identifica o responsável, o pertencimento oferece o lugar de onde reagir.
Quando essa engrenagem encontra ecossistemas digitais capazes de acelerar repetição, circulação e reconhecimento, o afeto deixa de operar apenas na esfera individual, e se converte em vínculo coletivo, identidade política e capacidade de mobilização.
É aí que está o desafio mais difícil para o a campanha do PT: não se combate uma política dos afetos apenas com uma política dos argumentos.
Esse talvez seja um dos problemas centrais que a campanha de Lula terá de enfrentar nas próximas semanas: não basta responder ao adversário, será necessário produzir uma razão emocionalmente inteligível para votar.
Vence quem melhor transformar ansiedade social em urgência política.
Porque o segundo turno será uma disputa por expansão da votação, e cada milhão de votos será decisivo. Perceba que me refiro a votos, e o faço de maneira intencional. Não dá tempo para persuasão com argumentos que ocupem o tamanho desta coluna.
No segundo turno, portanto, a disputa pelos próximos milhões de votos será também uma disputa para responder a uma pergunta elementar: o que está em jogo na vida das pessoas, e por que elas deveriam sentir que vale a pena ir às urnas para defendê-lo?
Falta storytelling aonde sobra tempo de televisão. Porque ocupar a tela não significa ocupar o imaginário.