PONTO E CONTRAPONTO: O IFPB JÁ DECIDIU O QUE NÃO QUER

Nesta quarta-feira, 7 de outubro, o IFPB escolhe seu novo Reitor. Para além de decidir entre duas candidaturas, a comunidade está diante de uma escolha sobre o modo de fazer política institucional que pretende levar para os próximos anos.
A esta altura dos acontecimentos, vejo crescer no IFPB um sentimento que já não se pode negar, tampouco reter. É o IFPB dizendo que a primavera chegou. Porque ao votar, todos o farão no tempo presente, dádiva divina que não pode ser profanada anunciando a volta dos que não foram. Vejo que o IFPB já decidiu algo fundamental: o sentimento que contagia servidores e estudantes aponta numa direção, processo de construção onde todos dão as mãos.
A história nos convoca a construir um novo IFPB, e para isto não se pode esquivar de uma verdade elementar que não podemos ignorar: se percorrermos os mesmos caminhos, chegaremos aos mesmos lugares.
O ex-Reitor, Cícero Nicácio, cada vez mais desaplaudido, e quase cotado para ser Secretário de Educação (essa é muito boa), tem contribuição inscrita na história desta instituição. Reconhecer isso não me impede de falar sobre outra parte da mesma história, inclusive aquela da qual participei diretamente. Aqui não se trata de persuasão, esta coluna tem viés, mas conduzidos pela estupenda Clarice Chianca, provoco, instintivamente, antes de colocar sobre a mesa, no caso, sobre a tela, fatos documentados que não criminalizam quem quer que seja, mas são informações que parte da comunidade, a imensa maioria que não está como Cheerleader, ou papagaio de pirata, deve compreender.
Ontem, apoiadores da Campanha do ”Todo dia a Mesma Noite”, colocaram em larga circulação um corte mequetrefe da gravação de reunião ocorrida em 3 de agosto de 2023. Um corte é essencialmente feito para ser viral, mas como a turma não cansa de passar vergonha no débito e no crédito, o que esconde todo o reboliço de uma reunião em que a Reitora é encurralada, é o pleito para que eu fosse, naquela ocasião destituído da superintendência que não consta no meu currículo, e de brinde que fosse instaurado um PAD contra mim. Como o cabra é tão óbvio quanto blusa branca e jeans, e estava no fervor do ódio pelo que me parece ter sido interpretado como crime de traição colocou palavras na minha boca, e insistiu na liturgia inquisitorial de que um servidor federal de carreira tem o dever de formalizar a denuncia, apontar suspeitos, e apresentar provas.
Se você copiar e colar em alguma IA, perguntando se caracteriza retaliação, que é em si uma modalidade de assédio, o servidor público federal que cumpre o dever de representar contra supostas irregularidades, com base em indícios documentados numa linha do tempo igualmente documentada, reportando as inconsistências, e, ao tomar ciência a providencia exigida da Reitora com veemência é abertura de PAD contra quem denunciou, é match.
O episódio é recuperado para sustentar uma narrativa sobre minha conduta naquela crise e ressuscitar até a história do famoso “dedo na cara”. Não é verdade que coloquei o tal dedo na cara Ex, apenas risquei uma linha no chão, para dizer que dali não passava, e exigi uma retratação, dizendo que caso contrario o representaria junto ao Conselho de Ética, que foi feito para não funcionar. Retaliação e intimidação são perversões morais que o senso comum do Direito Universal entende como violências.
Quando estiver defendendo um direito, o faça com veemência, pois ao descumprir todas as normas de proteção ao denunciante, o direito que é conquista, como também aspiração, dependia da minha conduta de impor limites, dentro dos parâmetros legais e constitucionais, fui incisivo. Desrespeitoso é expor impropriamente, burlando na saída o sigilo de quem denuncia. Desrespeito é pedir reiteradamente abertura de PAD.
Desrespeitoso é questionar minha legitimidade para ocupar espaços, a par do compromisso com as entregas, mas sobretudo com as pessoas. Desrespeitoso é tomar como verdade absoluta aquilo que ouviu dizer que aconteceu, e agir movido pela certeza reservasa a quem estava presente na tal conversa.
Desrespeito é conviver com violência de Estado há 3 anos, tendo em minha defesa minha vocação para o enfrentamento.
Pois bem.
Se querem voltar a 2023, voltemos a 2023 inteiro.
A HISTÓRIA NÃO COMEÇOU EM 2023.
A tentativa de transformar uma reunião de agosto de 2023 no marco inaugural dessa história tem um problema incontornável: os documentos têm memória. Minha atuação técnica sobre a relação entre o IFPB e a FUNETEC é muito anterior à minha passagem pela Superintendência. Já em setembro de 2019 havia sido produzido relatório situacional sobre inconsistências que precisavam ser enfrentadas nessa relação. E, em 6 de janeiro de 2020, participei de reunião da alta gestão do Instituto, registrada em ata, na qual a discussão incidiu justamente sobre a posição da Fundação acerca das chamadas “taxas” e sobre a base jurídica aplicável àquele modelo. Portaria Normativa _ Regime de …
O que aconteceu depois é ainda mais revelador. A discussão técnica desembocou no Parecer nº 05/2020/CTT, que assinei, no pronunciamento da Procuradoria Federal e, finalmente, na Portaria nº 268/2020. O ato, assinado pelo próprio Reitor Cícero Nicácio, reconheceu a necessidade de uma “nova orientação geral” para a relação entre o IFPB e sua Fundação de Apoio e instituiu um regime de transição. Entre seus fundamentos estava justamente o mapeamento dos riscos para os interesses institucionais e para a esfera jurídica de terceiros.
E esse ponto é fundamental para compreender minha atuação naquele momento. Não se tratava de procurar culpados.
A resposta jurídica veio em seguida. Provocada a se manifestar sobre o modelo, a Procuradoria Federal junto ao IFPB não tratou a controvérsia como uma invenção minha. O Parecer nº 24/2020 estabeleceu nova orientação para a relação com a Fundação: reafirmou o limite de 15% para as despesas operacionais e administrativas, exigiu maior controle e análise prévia desses custos e enfrentou a possibilidade de subcontratação irregular de atividades integrantes do núcleo essencial dos serviços que cabiam à própria Fundação. A orientação posteriormente incorporada pela Administração vedou, ainda, a remuneração de terceiros por percentual fixo sobre o valor global dos projetos e considerou incompatível determinada subcontratação de empresas de Consultoria, uma vez que o modelo de negócio apresentava justaposição com o que o IFPB remunerava a FUNETEC para fazer. Categoricamente, houve prática reiterada de sobrepreço.
Ou seja: eu levantei tecnicamente o problema. A Procuradoria respondeu. E o próprio Reitor transformou aquela resposta em orientação institucional.
Havia preocupação em corrigir práticas administrativas e, simultaneamente, preservar a segurança jurídica daqueles que haviam investido em desenvolvimento conjunto de tecnologias, nomeadamente empresas que recebem incentivo fiscal e têm a obrigação de investir em PD&I em ICTs do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Após o Parecer da Procuradoria o Instituto sob a orientação anteriormente praticada. Documentação que posteriormente recuperou esse processo registra expressamente que os parceiros do setor produtivo eram terceiros de boa-fé expostos, em 2020, a riscos de elevado impacto e probabilidade.
Essa é a cronologia que o vídeo de 2023 não mostra.
A Portaria enfrentou concretamente o problema: exigiu detalhamento e justificativa das despesas, análise de custos e pesquisa de preços; vedou remuneração de terceiros por percentual fixo incidente sobre o valor global dos projetos; fixou, nas condições previstas no ato, o limite de 15% para despesas operacionais e administrativas; e considerou incompatível com a nova orientação determinada subcontratação de atividades que se confundiam com serviços próprios da Fundação. Portaria Normativa _ Regime de …
Portanto, a cronologia não começa em 2023. Começa, documentalmente, pelo menos em 2019. Passa pela reunião de 6 de janeiro de 2020, pelo Parecer da CTT, pela Procuradoria Federal e pela Portaria assinada pelo próprio Cícero Nicácio. Só três anos depois chegamos à FUNETEC de 2023.
Não era campanha eleitoral. Não era disputa entre grupos. Não era reação pessoal contra quem quer que fosse. Era trabalho técnico — cujo resultado permaneceu escondido em uma gaveta.
A própria Portaria nº 268/2020, assinada pelo ex-Reitor Cícero Nicácio, registrou expressamente como um de seus fundamentos o mapeamento de riscos constante do Parecer nº 05/2020 da CTT. O mesmo ato registrou que manifestação da Procuradoria Federal junto ao IFPB estabelecia uma “nova orientação geral” para a relação entre o Instituto e sua Fundação de Apoio. Portaria Normativa _ Regime Transição.
A resposta da Procuradoria foi muito mais contundente do que “vamos rever procedimentos”. O que consigo reconstruir documentalmente do Parecer nº 24/2020/COORD/PFIFPARAIBA/PGF/AGU é que ele estabeleceu uma nova orientação jurídica e enfrentou precisamente o debate que estava colocado na reunião de 6 de janeiro, ocorrida em 6 de janeiro de 2020.
A Procuradoria assentou três pontos centrais: (1) a DOA da Fundação deveria respeitar o limite de 15% dos recursos financeiros do projeto, nos termos do art. 74 do Decreto nº 9.283/2018; (2) era necessário melhorar os mecanismos de gestão e fiscalização, com análise prévia do demonstrativo das despesas operacionais e administrativas; e (3) deveria ser revista a relação com a Fundação quanto à prospecção e ao suporte administrativo para afastar hipótese de subcontratação irregular do núcleo essencial daquilo para que a própria Fundação havia sido contratada.
E a consequência aparece cristalizada na Portaria editada logo depois: a nova orientação considerou incompatível a subcontratação de empresa de consultoria quando os serviços se confundissem com aqueles que deveriam ser prestados pela própria Fundação; exigiu autorização prévia e motivada para outras subcontratações; vedou remuneração de terceiro calculada por percentual fixo sobre o valor global do projeto ou sobre o aporte da empresa parceira; e reiterou o teto de 15% para a DOA.
A documentação que recupera o Parecer registra que a Procuradoria teria alertado para duplicidade de pagamento, ao confrontar contratos de consultoria com a remuneração cobrada pela própria Fundação. Esse é exatamente o elo que precisamos tratar, pois não era apenas uma discussão abstrata sobre “taxa alta”; havia uma questão sobre o que estava sendo remunerado pela DOA e o que voltava a ser remunerado por contratação de terceiros.
E aqui a memória encontra um adversário formidável: a assinatura.
Quem assinou a Portaria? O ex-Reitor Cícero Nicácio.
Portanto, anos antes do vídeo que agora circula, já havia processo, parecer técnico, mapeamento de riscos, manifestação da Procuradoria Federal e ato do próprio Reitor determinando a mudança de práticas, Política de Inovação e instrumentos complementares, a própria Resolução nº 85/2021, que estabelece regras de relacionamento entre o IFPB e Fundações de Apoio.
EM 2023, A APURAÇÃO TAMBÉM COMEÇOU ANTES DA REUNIÃO
Quando assumi interinamente a Superintendência da FUNETEC, eu não desembarquei naquele debate como alguém que tropeçou no problema. Havia parte do problema que refletia a conduta do ex-dirigente máximo, em alegações sobre a saúde financeira da FUNETEC-PB. Era sabido sabido a fragilidade do grau conformidade dos processos da FUNETEC, inexistindo mecanismos de gerenciamento de riscos.
Eu conhecia seus antecedentes, mas sinceramente, enquanto gestor de políticas públicas me vi diante de algo desenhado para não funcionar. Porque o que já era dramático no relatório de gestão tornou-se o inimaginável. Poderia dizer que sequer havia fluxo definido para processos, contar do estado crítico que a equipe jurídica enfrentou, mas vou começar confiando na inteligência do homo sapiens.
Ora, apesar da batida de pino e da covarde e virulenta violência política de gênero suportados pela Reitora dia sim, dia também, bastava ler o que estava escrito nos relatórios de gestão encaminhado pela FUNETEC:
Resumo dos Dados (Antecipação de Recebíveis):
| Exercício | Valor Nominal (R$) | Valor em Milhares (R$ mil) | Variação Anual | Participação / Destaque |
|---|---|---|---|---|
| 2020 | R$ 499.204,23 | R$ 499,20 mil | — | Nível base de antecipações |
| 2021 | R$ 865.694,19 | R$ 865,69 mil | +73,41% | Expansão com a carteira de 61 projetos |
| 2022 | R$ 1.570.480,50 | R$ 1.570,48 mil | +81,41% | 40,81% do total das receitas D.O.A. |
- Crescimento acumulado no triênio (2020 → 2022): +214,60%
- Montante total captado no período: R$ 2.935.378,92
A FUNETEC-PB não operava em regime de déficit, tampouco há justificativa para movimentação de recursos entre contas específicas destinadas à individualização dos projetos. Para a jurisprudência consolidada do Tribunal de Contas da União (TCU) e dos Tribunais Superiores, a movimentação de recursos entre contas bancárias específicas de projetos geridos por fundações de apoio constitui infração grave à ordem financeira e orçamentária, com repercussão direta no rompimento da rastreabilidade do dinheiro público e na caracterização de dano ao erário.
R$ 2.935.378,92
Vai piorar, acredita?
Porque meus detratores não se deram ao trabalho de ler o que estava escrito no relatório de gestão encaminhado pela FUNETEC-PB e questionar as despesas na ordem de R$ 30 mil com o escritório em Brasília, cujo pagamento determinei imediata suspensão por não demonstração do elo.
Não lutam pela verdade. Afirmo para gastar meu senso de elegância.
Encontrei na figura de Dr. Alley Escorel um anjo, que tornou-se amigo. Havia falsificação de documentos assinados pelo Diretor de Projetos destituído — a quem neguei carta de idoneidade.
Em 28 de julho de 2023, portanto antes da reunião de 3 de agosto, enquanto superintendente, editei a Portaria nº 009/2023.
O ato constituiu formalmente Grupo de Trabalho para levantar informações e documentos da gestão anterior, examinar contratos e parcerias, realizar diagnóstico financeiro e econômico, fortalecer mecanismos de governança, risco e integridade e “identificar eventuais irregularidades e inconformidades”, propondo as medidas pertinentes.
A Portaria também previa que o trabalho fosse levado ao Conselho Curador e, quando pertinente, aos órgãos externos de controle, inclusive o Ministério Público.
Repito porque a data importa: quando aquela reunião aconteceu, a apuração já estava no papel.
DENÚNCIA SE APURA. DENUNCIANTE SE PROTEGE.
Houve uma discussão dura naquela reunião? Houve.
Manifestei-me de forma incisiva? Sim.
E assumo integralmente aquilo que efetivamente fiz e disse. A mentira é um troço que está sempre na conta do mentiroso, então prove a mentira.
O que não aceito é que um fragmento de um conflito seja transformado, três anos depois, em substituto de toda a história que o antecedeu. Também não aceito uma inversão perigosa para qualquer instituição pública: transformar aquele que comunica fatos e indícios em responsável por realizar, sozinho, toda a investigação necessária para comprová-los.
Denúncia se recebe. Indício se apura. Prova se produz no procedimento adequado. E denunciante se protege.
Isso não significa que alguém possa formular acusações irresponsavelmente. Quem noticia fatos tem o dever de apresentar elementos que permitam sua apreciação. Mas uma coisa é comunicar fatos, documentos e indícios. Outra, completamente diferente, é exigir do denunciante que substitua auditorias, comissões, corregedorias, Ministério Público ou demais órgãos competentes.
E havia algo a ser apurado.
O relatório produzido durante a transição registrou, entre outros pontos, crescimento de 223% nas despesas com consultorias entre 2021 e 2022, relações empresariais que demandavam aprofundamento, inconsistências documentais e a necessidade de auditoria financeira independente e de exame mais detalhado de contratos e convênios.
Isso não significa antecipar culpa de ninguém.
Significa exatamente o contrário: havia matéria para investigação.
QUANDO APURAR PASSA A SER TRATADO COMO OFENSA, O OFENDIDO QUE SE EXPLIQUE, E QUE A JUSTIÇA PREVALEÇA.
Poucos dias depois, em documento de 8 de agosto de 2023 dirigido ao Conselho Superior, já aparecia uma construção que me acompanharia pelos anos seguintes.
O documento falava em “acusações sem prova” e estabelecia uma espécie de alternativa punitiva: ou existiria uma organização criminosa a ser combatida ou existiria um “caluniador” a ser punido.
Mas havia um pequeno problema nessa narrativa. Onze dias antes daquele documento, eu já havia instituído formalmente o Grupo de Trabalho encarregado de apurar os fatos.
Como poderia o resultado de uma investigação já ser exigido enquanto a própria apuração interna lidava com dificuldades, aliás, dificuldades que me levam ao último tópico, prometo.
Em 2025, um memorial dirigido ao CONSUPER chegou a requerer expressamente a “cobrança de provas” a este servidor, mencionando a possibilidade de processo administrativo disciplinar caso elas não fossem apresentadas.
É uma concepção de instituição que considero profundamente equivocada.
Se existem indícios, investigue-se.
Se existe denúncia falsa, apure-se também.
O que uma instituição pública não pode fazer é substituir investigação por intimidação.
O VÍDEO NÃO É A HISTÓRIA. É UM PEDAÇO DELA.
Por isso faço um convite muito simples a quem recebeu o vídeo: assista.
Não peço que ninguém acredite na minha memória.
Houve tensão. Houve indignação. Houve manifestação incisiva de minha parte. Houve preocupações que, de tão legítimas, o tempo só começou a demonstrar.
Mas depois faça outra coisa: olhe as datas.
Veja o parecer de 2020.
Veja a Portaria nº 268/2020.
Veja quem a assinou.
Veja a Portaria nº 009/2023.
Veja quando ela foi assinada.
Veja os relatórios.
Se você chegou até aqui, fica combinado que ninguém promete destino, muito menos por meio de cargos. Somos um novo IFPB, desde a criação do IF SERTÃO PARAIBANO.
Descontextualizar uma fala para constranger ou deslegitimar alguém pode ser extremamente eficiente na política das redes. Mas uma instituição não pode construir sua memória dessa maneira.
O passado precisa suportar o confronto com os documentos.
O IFPB NÃO AGUENTA MAIS TANTA CONTENDA
E talvez este seja o verdadeiro assunto desta eleição.
Desta vez, não se trata de uma escolha tão difícil. O IFPB é infinitamente maior do que tudo isto, porque tem como matéria-prima o sonho.
Esta eleição coloca em discussão o sentido que atribuímos à ética, à divergência e ao próprio senso de comunidade. Todo mundo nasce para pertencer, então vamos pegar a avenida luminosa que nos convoca a cocriar esse novo, sem amarras do passado.
Fiscalizar não pode significar perseguir.
Discordar não pode significar aniquilar.
Ocupar o cargo de dirigente máximo do IFPB não pode significar dividir permanentemente a instituição entre amigos e inimigos.
A divergência que instiga, em vez de dividir, é o motor da história. E a história agora nos convoca a olhar para frente.
O IFPB não aguenta mais tanta contenda. Nossos estudantes não podem esperar. Nossos servidores não podem permanecer aprisionados às guerras de ontem. Nossos campi têm problemas concretos. O mundo da educação, da ciência, da tecnologia e do trabalho está mudando numa velocidade extraordinária.
Precisamos discutir permanência estudantil, infraestrutura, valorização dos servidores, pesquisa, extensão, inovação, inteligência artificial, desenvolvimento territorial, internacionalização e o papel de uma instituição federal no desenvolvimento da Paraíba.
É preciso um novo pacto institucional.
Não um pacto de silêncio. Um pacto que restabeleça a possibilidade de discordarmos sem nos destruirmos.
EXISTE UM IFPB ANTES. E HAVERÁ UM IFPB DEPOIS.
O IFPB QUE SAIRÁ VITORIOSO NÃO PERCORRE UMA CAMPANHA DIZENDO QUE VAI ESTIRPAR ADVERSÁRIOS.
O IFPB que sairá vitorioso não percorre uma campanha dizendo que vai estirpar adversários.
Porque uma instituição de educação não existe para estirpar gente. Existe para fazê-la florescer.
O IFPB que precisa emergir desta eleição não pode ser construído sobre a promessa de eliminar o outro, escolher novos inimigos ou continuar distribuindo pertencimento conforme a posição ocupada nas guerras de ontem. Ninguém precisa desaparecer para que o IFPB possa renascer. Essa talvez seja a ruptura mais profunda que esta comunidade possa produzir agora: compreender que vencer não é derrotar alguém. Vencer é tornar desnecessária a lógica que nos obrigava a viver como adversários permanentes.
Depois de um inverno tão longo, podem dizer que será difícil caminhar sob o sol.
Será. Os olhos também precisam reaprender a luz.
Passamos tempo demais contando tempestades. Tempo demais identificando culpados. Tempo demais perguntando quem estava de que lado. E, enquanto fazíamos isso, esqueceram das folhas. Esqueceram que, mesmo durante o inverno, havia vida acontecendo debaixo da terra.
Mas, sobretudo, esqueceram de nós.
E nós somos muitos.
Somos todos. Somos vários. Somos únicos. Somos diferentes, contraditórios, inquietos. Somos quem chegou ontem e quem entregou décadas da própria vida a esta casa. Somos quem ensina, quem aprende, quem pesquisa, quem administra, quem limpa, quem cuida, quem abre o portão pela manhã e quem permanece até que a última luz seja apagada.
Separados, temos nomes, cargos, histórias, cicatrizes, divergências e escolhas.
QUANDO SOMOS UM, SOMOS MULTIDÃO, FUTURO PEDINDO PARA CHEGAR, CORAÇÃO NA MÃO.
UM NOVO IFPB VAI COMEÇAR.
E talvez seja essa a primavera que alguns ainda não conseguem enxergar. Não a vitória de uma pessoa. Não a derrota de outra. Não a substituição dos que mandam pelos que passarão a mandar.
Primavera é quando uma comunidade percebe que não precisa mais escolher quem deve desaparecer para decidir quem deseja ser.
Perdemos tempo. Perdemos relações. Perdemos confiança. Perdemos pessoas umas das outras. Gastamos uma quantidade imensa da nossa inteligência tentando sobreviver às guerras de ontem quando poderíamos estar usando essa mesma inteligência para imaginar o amanhã.
Por isso, não quero que esta eleição seja a continuação do ambiente de guerra, em que alguém precisa ser aniquilado para que alguém triunfe. Triunfar? Se pensarmos em triufo, cargos e poder precisamos perceber que isto nada diz sobre o IFPB.
Quero exatamente o contrário, e não estou só.
Talvez alguns tenham passado tanto tempo contando as tempestades que esqueceram das folhas. Esqueceram que, enquanto discutíamos quem tinha razão, havia gente chegando aos nossos campi pela primeira vez.
Havia estudante atravessando o portão carregando o sonho de ser o primeiro de sua família a ter um diploma.
Havia professor entrando em sala de aula. Havia técnico resolvendo o que ninguém vê. Havia pesquisa acontecendo.
Havia extensão chegando onde o Estado tantas vezes não chega. Havia gente construindo, silenciosamente, todos os dias, a instituição que nossas disputas insistiam em reduzir aos seus conflitos.
Esqueceram das flores.
Mas, sobretudo, esqueceram de nós.
E nós somos muitos.
Somos professores e técnicos. Somos estudantes. Somos quem chegou ontem e quem ajudou a construir esta casa décadas atrás. Somos João Pessoa, Campina Grande, Sousa, Cajazeiras, Patos, Cabedelo, Guarabira, Monteiro, Princesa Isabel, Picuí, Esperança e tantos outros territórios onde esta instituição deixou de ser apenas uma sigla para se tornar possibilidade concreta na vida de alguém.
Somos diferentes.
Somos contraditórios.
Somos barulhentos.
Somos vários.
Somos únicos.
E talvez tenhamos demorado demais para compreender que nenhuma dessas diferenças nos torna menos pertencentes à mesma história.
Porque, separados, somos servidores, estudantes, professores, gestores, pesquisadores, extensionistas, sonhadores, adversários, amigos, desafetos, gente que concorda e gente que jamais concordará.
Não precisamos pensar igual para caminhar juntos.
Não precisamos apagar o passado para construir o futuro.
Não precisamos esquecer nossas cicatrizes. Precisamos apenas parar de transformá-las em fronteiras.
Enquanto termino esta coluna, que começou como resposta, atravessou documentos, reencontrou fantasmas e acabou se transformando numa espécie de despedida, percebo que vou votar pela última vez na escolha de um Reitor do Instituto Federal da Paraíba.
Depois de tudo, descobri que não quero que meu último voto seja contra alguém.
Quero votar naquilo que se faz novo a cada instante. A HORA É DO AGORA. .
Faço minha prece.
Que sejamos capazes de nos encontrar novamente pelos corredores sem procurar saber primeiro de que lado cada um esteve. Que nenhuma gestão precise fabricar inimigos para demonstrar força. Que nenhuma crítica seja confundida com traição. Que ninguém precise escolher entre sua consciência e o direito de pertencer.
Que voltemos a nos reconhecer.
Porque há alguma coisa profundamente bonita acontecendo quando uma comunidade, depois de atravessar suas próprias noites, descobre que ainda consegue desejar a manhã.
Talvez seja isso que alguns ainda não compreenderam.
A primavera não é a vitória de um lado sobre o outro.
A primavera começa quando percebemos que não precisamos mais viver divididos entre vencedores e vencidos.
Ela começa quando uma instituição inteira descobre que pode ser maior do que suas feridas.
Depois de um longo inverno, podem dizer que será difícil caminhar sob o sol.
Que seja.
Caminharemos até nossos olhos se acostumarem novamente à luz.
Porque esqueceram das folhas.
Esqueceram dos sonhos.
Esqueceram dos estudantes.
Esqueceram dos campi.
Esqueceram daquilo que construímos quando ninguém estava olhando.
Mas, sobretudo, esqueceram de nós.
E nós estamos aqui.
Todos.
Vários.
Únicos.
Diferentes o bastante para fazer desta instituição uma comunidade.
E unidos pelo único nome que, depois de tudo, ainda consegue ser maior do que cada um de nós:
IFPB.
Que venha a primavera.
Não porque o inverno nunca existiu.
Não porque suas marcas desapareceram.
Mas porque nenhum inverno é eterno quando uma comunidade decide, junta, voltar a florescer.
O AMANHÃ É AGORA!
E é justamente por isso que quero terminar de outra maneira.
Não com mais uma denúncia. Não distribuindo ódio. Não escolhendo novos inimigo, mobilizando afetos
Quero terminar falando de reencontro.
Bem-vindo, Campus Guarabira!
Bem-vindo, meu amigo Leewerton, com disposição para unir e realizar.
Bem-vindo, Bruno, Diretor-Geral eleito do Campus Esperança.
Bem-vindo, Albino, alguém com quem aprendi tanto e em quem reconheço capacidade para ajudar a redefinir rotas.
Bem vinda, Turla! Agradeço sempre que posso pelo olhar humano.
Bem Vindos Cecília e Joserlan! Bem vindo, professor Fred!
Bem-vinda, minha PRPIPG! Canto e meodiqPROEXC, PRAE. Bem vindos, amigas e amigos da PRRRRRRRAAAAF, que logo será PROGEPLAN!
Bem-vindo, nosso ecossistema de inovação, que pulsa, cresce e mostra o tamanho do IFPB que ainda podemos construir.
Bem-vindas todas e todos que compreenderam que maioria não deve significar aniquilação da minoria.E gente adulta com compromisso público, que se nutre de amor para cada recomeço tem muito por viver, muito por fazer viver.
E, especialmente:
BEM-VINDO, MEU CAMPUS JOÃO PESSOA. MINHA CASA.
Há tanta potência ali esperando para ser desbravada.
Depois de tudo, consigo quase ouvir Alceu anunciando que na bruma leve das paixões que vem de dentro.
Com esse sentimento te digo: bem-vindo, Neilor!
O NOVO REITOR PARA O NOVO IFPB.
Que venha um tempo em que adversários possam voltar a conversar. Que diferença seja respondida com democracia.
E que o IFPB volte a gastar sua enorme energia não tentando destruir pessoas, mas construindo futuro.
O NOVO REITOR, PARA O NOVO IFPB!
O amanhã é agora.
Bem vindos ao novo IFPB.